domingo, 15 de julho de 2007

JÁ NÃO SE ALTERA O CURSO DESTE RIO

Sentiam e ainda sentem, como se fossem velhos conhecidos que se reencontram após muitos anos: sabem que são íntimos, mas levam um certo tempo para ajustar suas memórias.


Você é parte desse todo
onde me reconheço!
Você é composto da mesma matéria
onde fui engendrada,
barro da mesma fonte,
grão da mesma espiga,
um gêmeo cósmico
pelas mesmas causalidades,
um irmão em tendências
pelos bilhões de cruzamentos de genes।
E quando se dá essa sintonia
entre duas pessoas,
algo de especial acontece,
como uma licença poética
dos convívios rotineiros।
E isso é mesmo, se não um sonho,
algo que foge ao mecanicismo
que carrega as criaturas como um vendaval.
Então outro entendimento se instala,
quebram-se as regras do jogo da vida
e temos uma pausa,
como a que existe na escala musical
entre o mi e o fá e o dó e o si.
Um incompreensível acontecimento
em uma dobra do tempo.
Um estar ligado por fios invisíveis
de uma teia inexplicável.
E um deixar-se trespassar pela
espada fulgurante dos delírios
e se deixar ficar exangüe e doida,
voando em asas de onírico desenho.
Sou então a deusa amanhecida
nos jardins apenas vislumbrados,
em qualquer sonho de um simples mortal.
Sou mulher vencida diante de tal fortaleza,
Sou guerreira que depõe as armas
e se reconhece escrava de tal artimanha
à qual caminhei deliberadamente,
e por alguma arte de um deus amoroso
torno-me mansa e doce a qualquer gesto.
Já não se altera o curso desse rio,
e docemente as mãos entrego a tais algemas.







Nenhum comentário: