sábado, 26 de maio de 2007

TRAJETÓRIA

É pá que rasga a terra, endoidecida.
Da torpe navalha, o aço se faz morte.
Persigo essa ausência pra ver onde vai dar
e encontro nas mortalhas respostas incompletas.
É osso duro de roer, é pasmaceira,
de dias ensolarados, de noites intermináveis.
Quando a minha hora chegar, estarei pronta?
Quando o sino tocar, saberei que fazer?
Aonde tanta luz prometida?
Por entre as frestas das tábuas
vislumbre de madrugadas...
Chuvas lentas, postes enegrecidos,
ventos estonteantes
e o velho incômodo das perguntas sem respostas.
Por onde andarás agora, oh meu amado?
De que lodo será feito teu eterno abrigo?
E os homens que não amei,
e as mulheres que não fui?
Somos feitos de tantas possibilidades,
somos feitos de tantos pedaços de um quebra-cabeças,
quem se importa, Deus?
Estão todos à volta da mesa fingindo que são eternos,
que não existem os medos,
que não os aflige a incerteza.
Estamos todos comendo o pão nosso de cada dia,
como nosso avós, como nossos bisavós,
o pão que o diabo amassou.
Comeremos a nossa própria vida
num canibalismo de gestos e erupções,
nosso vulcão se retraindo,
engolindo a si mesmo,
explodindo no seu próprio ventre!
Que foi feito do coração da menina
que amava como amam todas as meninas?
Foi parar no peito de um executivo?
Quem se importa?
O bonde já passou,
o avião está no ar,
a Net já triplicou seu número de viajantes solitários.
......................................................
Descerei a montanha com meu cajado.
Sentirei as pedras ferindo meus pés.
A boca seca talvez diga uma oração.
Mas uma brisa leve aliviará meu cansaço e, tenho certeza,
sentirei o aroma selvagem e penetrante das ervas.
Estarei só, mas não solitária,
estarei plena de mim mesma.
E nessa hora, não buscarei respostas,
pois não terei nenhuma pergunta.

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