Em linhas analíticas,
também um tanto explícitas,
guardei proparoxítonas,
guardei meus pensamentos,
tão íntimos, recônditos,
num sonho um tanto esquálido,
que rima com inválido...
Oh rimas em ruínas,
em mãos por certo trêmulas,
em folhas tão efêmeras,
guardei meus versos pálidos,
perdi-me nesta trama,
tão pérfida metáfora,
com sons apocalípticos,
de trágicas, patéticas,
poéticas e inéditas,
verdades escondidas,
paixões tão incontidas..
E eu presa a essa retórica,
a essa droga eufórica
que me persegue impávida,
que quer-me sempre ávida,
a me roubar o poema,
a me deixar anêmica,
a me dourar a pílula!
Oh página virada,
quisera fosse a última,
e que por longas décadas,
geométrico, esquelético,
pousasse em qualquer sílaba,
não me roubasse a cena.
E todos nos amássemos,
na dúvida e no imperfeito,
nesta terra belíssima,
impávido colosso!
Oh gesto patriótico,
oh cívico estereótipo,
livrai-nos dessa dívida,
livrai-nos tu também,
de cenas tão magníficas,
da trágica, patética,
coreógrafa política...
Mas o círculo se fecha
e tudo recomeça:
o trânsito, semáforos,
catástrofes satânicas;
sorrisos ortodônticos,
quiméricos acenos,
paupérrimos barracos,
diálogos tão gastos.
E nesse berço esplêndido,
expiram criancinhas,
ao tilintar dos cálices,
nas ávidas mãos do poder.
Senhor magnânimo livrai-nos
da sina dessas palavras,
tirânica força opressora,
malévolo jogo de cores.
Eu quero fazer meu poema,
com muitos acentos ou não,
com a rima que eu bem quiser,
com as cores que eu escolher.
Mas quero também que ele tenha,
a cara nova de um povo,
sem fome, digno, sem medo,
com o jeito simples de gente,
sem retumbâncias vazias,
vozes hinos da tirania,
plantado com os pés no chão,
que não seja a terra alheia,
que seja onde ele semeia,
sua vida, seu ganha-pão.
Senhor livrai-nos da opressão,
dos acentos, da ganância,
de toda vazia arrogância,
dos brasões, dos protocolos
E dai-nos a vossa bênção,
paroxítona bem-vinda,
e quantas palavras ainda
escrevam uma nova História!
( POEMA ESCRITO EM 1990 )
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