sábado, 9 de junho de 2007

QUANDO MAIS NADA HÁ A PERDER

...e este curral tem fortes trancas, mas a presa indômita, selvagem potranca, ou vaquinha mansa, um dia se ergue nas patas e a tudo arranca, quando mais nada há a perder. O corpo em rebeldia se agiganta e rompe as grades de sua prisão...


Ela se mandou desgovernada
e não quis ouvir nenhum conselho,
nem se submeteu ao relho.
E o velho que a queria escrava pra seu desfrute,
ficou gritando com o laço na mão,
a correr patético pelo campo afora
e agora quem irá alimentar sua ganância
e seu desejo mórbido?
Este velho safado, encarniçado,
"vá tomar leite de seringueira!"
e, se duvidar, vai agora mesmo
outra bobinha engambelar,
pegar pra criar, dar casa e comida
em troca de tudo,
em troca de carne e sangue, leite fresco!
Oh velho safado, endemoniado,
constrói suas cercas de lodo e de fel
se esconde nos estábulos e come pão dormido
e roga praga aos ventos e às flores,
eta esses senhores de sanha guardada
em cofres lacrados,baús recheados de ouro e solidão.
Vai-te com teus demônios que essa vaquinha não te pertence mais,
já não pasta na tua mão, seu ladrão!
Que esta que se foi abanando em preto e branco de pêlo macio,
agora estará pelos campos
liberta e cheia de vida,
bem longe dos teus domínios.
Babe agora, velho babão!
Vá se ferrar, seu Elesbão!

LARANJEIRAS NA LUA CHEIA

"... a poesia tem esse luxo, pode ser apenas bela..."

desço a teia fluida e imperceptível

domo a ânsia dessa insensatez violácea,

bordo meus sonhos em ondas e beijo a folha úmida de orvalho.

brancas flores em êxtase perfumado,

branca lua aconchegada e lânguida...

e eu tecendo meu caminho incerto

neste verde escuro a refletir auroras!

sonho em ti e em ti me deixo florescer

nesta noite esplendorosa e morna,

como as tenras formas dessas flores de laranjeira!

QUANDO A SENTINELA SE DESCUIDA

"Também o que importa mesmo e outra coisa que nós nem sabemos ainda o que é, esta coisa está escondida de nós... tomara não seja tarde quando descobrirmos o que é..."


Há dias em que só vemos o portão cadeado a nossa frente,
o gesto que vai além de nosso alcance,
o amanhã que não quer nascer,
a flor que secou antes de desabrochar,
ou o caminho que rejeita nossos pés!

Mas há outros e sempre os haverá,
em que novos ares parecem secar todas as lágrimas,
a sentinela à nossa porta se descuida,
surge uma uma fresta na parede por onde entra a luz!
E uns perfumes novos no ar de primavera se insinuam,
acordam-se as flores que teimam em voltar todos os anos,
vão-se as amarras que se gastam pelo tempo,
dão-se uns olhares que se cruzam por acaso
e uns deslumbramentos com que não mais sonhávamos,
um dia amanhecem conosco e nos convidam a abrir as janelas.

DES CON VERSANDO

Você entrou no trem

e eu na estação

a te ver fugir

.........................

e agora tudo bem

você partiu

para ver outras paisagens

mas meu coração embora

sinta fazer mil viagens,

fica parado, perdido, naquela estação...


"Agora, pra seu governo, eu estou na Estação "Taniutcha" --- estou parado, bebendo da sua água, olhando as suas florescências, refrigerando-me de suas novidades... escutando uns pássaros, olhando umas distâncias... pensando na vida por levar... Lembrando-me da sua "Autodefinição" prismática, aquela que você me apresentou.... e coisa e tal, e coisa e tal..."





dias de rosas e vinhos
days of vines and roses,
rosas, espinhos, solidão
descaminhos...
entraves, as chaves
os ninhos, saudades
viragens
ventania
projetos inacabados,
solitudine, solo, seul,
SOLEDAD
teclados planos e ebúrneos,
PIANOS
Hermosos los dias avec usted and moi!
Las cruces, facere!
Danou-se o cabra da peste
que veio do leste
pra me transtorná,
esqueletos nos desertos, afetos,
espadas, sorrisos nas molduras.
gavetas, as cartas e o vento levou
aquela velha calça desbotada ou coisa assim,
"e tudo fugiu, e tudo mofou"
"tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo"
e um filme na cabeça,
onde as minhas memórias persistem
como velhos filmes guardados,
que às vezes eu deixo passar
e então eu faço parar
nas cenas de que eu mais gosto.
hoje meu filme parou,
naquela Estação Taniucha...

BENDITA INSANIDADE

Oh benvinda insanidade que a tudo sorri!
Entregai a mim teu rico versejar,
dai-me a vossa bênção de maldita,
e iluminai minha escuridão rastejante.
Oh amiga das horas amargas
estendei teu manto multicor
pra que nele eu repouse a velha carcaça!
Oh insanidade que invadis
meus domínios mais recônditos
eu vos bendigo, pois em vós
está toda a verdade.
Em vós habita a grande mãe natureza,
em vós resplandece a minha mais humana face.
Eu me rendo a vossa magia e força nesta hora.
Sou tua dileta filha transfigurada,
fazei de mim uma aliada!
Deixai que eu mate a minha sede nestas águas turbulentas
e que eu nelas me banhe inteira.
Não permitais que me levem os ventos frios dos regramentos
Valei-me, mãe Dionísia,
rogai por mim ao nosso deus Dionísio...

CÉU DE MAIO

[ e que buscavas en la noche outonal, un norte a seguir, una constelación pqueña de estrellas muy luminosas? La perdeste de vista? Pero ella se queda al firmamento para que la observes en el mejor momento, a mediados de mayo, ella se queda al firmamento para ser vista por ti...]



O que procuras neste céu de maio
em olhares cravados feito lobo faminto na escuridão?
Te espreita qual indagação que queres respondida,
sabendo desde já tarefa vã?
Se em teu interno firmamento cheio de pontos luminosos,
em explosões tiveste tudo escrito
e não encontraste respostas,
que poderão dizer-te as estrelasem constelações bordadas?
Se de tua alma rebrilhando em êxtases
insistes em não ver a chama?
Que buscas fora, la no firmamento escuro
que já não foi-te exposto qual visões?
Talvez procures alcançar a Nêmesis,
da morte a estrela, anunciada em medos,
já que te move um sentimento obscuro.
Deixa falarem os teus firmamentos
em sua voz mais doce acalmando as dores!
Deixa que gritem pra afastar a morte
e façam coro com a voz dos anjos.
Verás na noite do teu peito amargurado
surgir então entre magia e susto
canções brilhantes, abrandando arestas.
Escuta bem, não digas não ainda,
e ouvirás tal brilho e ainda verás sons tantos,
pois é infinito o nosso ser profundo.
E de escuro e frio em horas aziagas
em claro dia pode vir a se tornar,
pois como à noite sempre segue um novo dia,
assim os teus pesares tristes,
amanhecidos em brancos lençóis
suave cambraia, doce lírio das madrugadas,
chuvas de estrelas mansamente levarão.

SE FIZERMOS DE NÓS O MENOR TAMANHO

Se formos bastante insignificantes para caber em qualquer refúgio,
se de tudo que somos ou pensamos ser, fizermos o menor tamanho,
então nos será fácil superar agruras
e ver que enfim somos tão pouco
e tão obtusos com nossos diplomas.
Não há que temer o desconhecido,
nem de nossa sorte fazer lamúrias,
pois que vida e morte são a mesma sinfonia
com seus sons graves e outros mais agudos,
que a flor que hoje morreu na terra se transforma e volta em nova planta,
num constante renascer.
É preciso dissolver-se na grandiosidade do universo,
perceber-se dentro dessa engrenagem miraculosa,
diluir a própria imagem nesta aquarela metafísica
que nenhuma ciência explica, que nenhuma filosofia alcança.
Quando mares e pensamentos fundem seus rumores,
árvores e corpos se transfiguram além da visão,
quando os pés na terra se sentem aconchegados,
quando olhos viajam nas asas dos pássaros
e mãos se mesclam à comida que preparam,
quando versos vertem com as chuvas nos telhados
e lágrimas tecem heras pelos jardins,
está se denunciando a vida além das aparências,
um grande e uníssono grito
que canta a mesma nota
e ressoa e vibra ad infinitum...

SOMENTE DORMIR E ESQUECER


Há esses momentos de solidão rasgada
galopando às nossas costas,
atropelando nossas memórias
atropelando e levando nossos pedaços em redemoinhos,
açoitando noites e dias inteiros até sangrarem
em infinitos pontos de interrogação,
que ficam assombrando como demSônios traiçoeiros
qualquer possibilidade de abrandamento.
E como papel picado nossa integridade
se vê então esquartejada em infinitos cacos
de tudo que fomos, de tudo que pensamos ter sido.
Rasguem-se as bandeiras de verdades duvidosas,
faça-se luz nas trevas deste instante.
Que a dor vomite em prantos este meu sofrimento
e que a revolta de estar viva enquanto restas lá sozinho
me enlouqueça ou mate!
Que me faltem o discernimento pra não ter que suportar
todas as quedas dessa via crucis.
Que enfim tua lembrança venha suave sem questionamentos vãos.
Que ela me console e faça dormir em paz,
que não me assaltem mais esses pesares e indagações sem jeito.
Quero dormir agora, somente dormir,
quero dormir agora o esquecimento inteiro!